
A Pseudo-Bruxaria
Por Asgard
Àqueles que buscam a beleza nos caminhos da
bruxaria, eu também - pois muitos já o fizeram -
alerto de que aqui não a encontrarás, senão mediante
muito esforço, dedicação e sofrimento.
A Bruxaria não é a tradição nem o caminho para o povo,
para o público laico que deseja somente mais um
espetáculo, mais uma cena nesse circo imaginário em
que vive. Os deuses não são palhaços, como também
os bruxos não são seus malabares.
Nenhuma divindade, no passado e no presente, e no
futuro desejamos nós, procurou agradar o ser humano,
pois para agradá-lo é necessário consentir com seus
erros; qual a mãe que acatando todas as vontades do filho
verá nascer dele um homem sério e louvável ? Nenhuma
é a resposta que a lógica nos dá. Assim, não esperemos
dos deuses fartos buquês de rosas, ou bálsamos para
todas as nossas dores egocêntricas.
Os Antigos não estão aqui para nos agradar, como tanto
se diz; estão para nos ajudar nesse eterno processo de
evolução, e para evoluirmos devemos confrontar-nos com
nossos próprios defeitos, nossas fraquezas, esses os
verdadeiros demônios. Tal ciência não é tida por muitos
atualmente, procura-se enfeitar os velhos tempos e pintá-los
de rosa para receber os deuses que criamos em nossa
imaginação, baseados em egrégoras milenares, mas que
possuem como única característica o fato de existirem apenas
para alimentar e nutrir os temores dos homens. Esses deuses
de hoje não são os deuses de ontem, são bodes nos quais o
homem põe a culpa de seus atos pela evidente fraqueza que
possuem no momento de encará-los.
Após o crepúsculo dos deuses, quando os Antigos deixaram a
humanidade tornar-se órfã, apenas poucos seletos abrigaram e
guardaram consigo a chama sagrada, mantendo protegidos os
velhos ensinamentos que, nas mãos do laicato, se tornariam
armas utilizadas em seu próprio suicídio.
Nem todos os homens estão preparados para conhecer certas
verdades, os homens não são iguais, se o fossem, não haveria
mais sentido em se manterem aqui, logo fariam melhor
suicidando-se coletivamente, e poupando aos deuses o
trabalho de limpar a terra de um mundo preenchido de lodo
e lama.
Esses grupos e sociedades que preservaram os segredos, o
fizeram porque sabiam de sua importância. Deixar os homens
sozinhos e permitir que os últimos mistérios se fossem, seria
o mesmo que condenar a humanidade ao fatal destino que tantos
profetas já previram. A Bruxaria está aberta a todos, como uma
ciência e religião. É ela que mantém acesa na Gália a velha
chama de Héstia, que também queimava em Roma. Porém,
poucos são aqueles abertos à verdadeira Bruxaria, aos
verdadeiros segredos que regem os ciclos da Terra, da Natureza
e do Homem.
O que se encontra hoje tão disponível na grande mídia, não é a
velha trilha que leva aos antigos bosques de carvalho. Essa se
mantém preservada dos olhos invejosos de certos povos. O que
se encontra nela são apenas farsas, comédia e novelas para
aqueles que procuram diversão, muitas vezes cercada de
perigos desconhecidos.
Brincar com os deuses é brincar com a vida, e com a morte.
Pois o mesmo que dá a vida a toma, assim é a eterna espiral,
a Grande Mãe que alimenta com seu corpo os filhos pródigos,
e com esse mesmo corpo os enterra.
O que estamos tentando explicar, é que nem tudo que reluz é
ouro, como já ensinavam nossos antepassados. Não basta
desenhar esferas para criar mundos, não basta acender velas
para conversar com o elemento vital; é mister conhecer o
segredo de que os deuses não são e não podem ser banalizados
como peças de um jogo de xadrez.
Querer representar os deuses comolindos anjos dispostos
a servir à humanidade, é errar de forma tríplice: é atentar
contra si mesmo, contra a verdade e contra a divindade.
Muito se procura banalizar os deuses em nosso tempo:
Afrodite tornou-se uma versão helênica da Smuferti, aquela
duendezinha azul dos desenhos animados, e esquece-se
de que na Trácia, sob o nome de Afrodite Zerintia, ela
recebia como oferenda sacrifícios de cachorros, animal que
muitos tem como membros de sua família.
Ao ler isso muitos se assustarão ao saber que sua bela e
rosada deusa recebia sacrifícios de animais. Poucos sabem
também, que para os atenienses, ela era conhecida como a
mais velha das Moiras. As Moiras, sombrias deusas do
destino, que traçavam a vida e a morte dos seres, tinham
como irmã a deusa do amor; porém, não esse amor fútil dos
homens de hoje.
Hécate, senhora da encruzilhada, vagava nas noites escoltada
por inúmeros fantasmas e monstros, e certas criaturas a tem
como Mãe, acendendo lindas velas e proferindo belas orações
em sua honra.
Sekhmet, a leoa do Egito, hoje mais parece Bastet, um gato
inofensivo. Isso nas mentes doentias das criaturas que merecem
mais a morte do que a vida digna dada pelos deuses para que
tornemo-nos ventos e tempestades.
Em todos os mistérios, nenhum ser era admitido senão após
passar por provas de capacidade, ritos de iniciação e de passagem,
ritos esses que muitas vezes punham em risco a vida daqueles
que os testavam. Atravessar a tempestade de frente é a melhor
maneira de provar ao Vento que se é digno de conhece-lo.
Hoje se vendem cursos e certificados de iniciação, onde o neófito
pouco conhece dos perigos de se clamar aos deuses, sem mostrar-se
digno disso. O homem é mortal por seus temores e divino por seus
desejos, de fato possui em si a centelha de sua origem divina. Para
se tornar maior, o Homem deve enfrentar pedras em seu caminho,
andar contra a tempestade, nadar contra a correnteza, olhar o fogo
subjugando-o. Para se mostrar digna dos deuses, a humanidade
deve colocar-se acima de tudo o que é inferior. O medo e a ignorância
são seus piores inimigos nessa senda.
A ignorância da qual falamos, é a ignorância de si mesmo, aquela
que te faz mentir por medo de encarar a realidade e assim obter meios
para moldá-la conforme sua vontade. A verdadeira Bruxaria é a arte
do desejo, da vontade sobre todas as coisas, é a arte de criar.
A pseudo-bruxaria, porém, é aquela que procura negar ao Homem o
direito de se tornar divino, é a que procura enfeitar e inventar para
chamar atenção, é a que procura a mídia para divulgar-se para a
platéia. A pseudo-bruxaria cria círculos, inventa cantos, pendura
flores, apenas para tentar convencer. Isso a difere da verdadeira
bruxaria, que não procura convencer os Homens ou se fazer respeitar
por eles. Nosso objetivo é maior.
Em verdade dizemos: não procura rebanho caro caminhante, procura
mestres na observação da natureza e seu ciclo. Aquele que procura
rebanhos é o que tem necessidade de mostrar-se, acredita-se tão
evoluído que não possui mais o que aprender. A esse dizemos que
se encontra em lugar errado, deveria estar em Avalon, a Terra da
Maçã, ou então nos contos infantís sendo a própria maçã. Tenha o
aprendizado como hábito, não como objetivo, já dizia certo
conterrâneo de Aquiles.
Não procuramos aquele que sorri. Seus dentes são prezas e nós apenas
suas futuras vítimas. Procura a fera que não esconde suas garras,
enfrenta a Esfinge, e encontrarás o caminho de Eleusis. Não procura
aquele que te agrada: os escolhidos dos deuses são desumanizados,
dizia Fortune, e como tais se tornam incompreensíveis para o resto
da humanidade.
Assim foi com todos os magos e gênios que passaram por esta terra.
Mostre-se digno dos deuses e serás desprezado pelos Homens.
Paracelso morreu aos 48 anos, morto por seus inimigos que não
entendiam sua arte; Gilbert, Urban Grandier e Cagliostro foram
mortos por enfrentar a hipocrisia de sua sociedade. Cazotte foi
decapitado em 1792. Robert Cochrane suicidou-se. Crowley foi
perseguido por toda a sociedade de então, transformado em um
símbolo do demônio, era apenas um ser que transcendeu os
limites e recusou-se a participar da patifaria que nos é tão conhecida.
Os bruxos e sacerdotes da pseudo-bruxaria são aqueles que sorriem
para a humanidade, alimentam suas ridículas superstições e por isso
recebem adoração. Mais uma vez repetimos: a Bruxaria não é a
arte do engôdo, não é a arte dos romances de Shakespeare. Para
conhecer os mistérios da vida e da morte, é necessário nascer,
morrer e renascer, processo que custa principalmente a morte de
muitos de nossos conceitos.
Não se conhecem antigos Mistérios através de livros ou manuais de
formação de bruxas instantâneas, não se torna sacerdote dos deuses
aquele que agrada e se submete aos humanos. Sê contrário, vá
contra a correnteza, enfrenta as fortes marés da sujeira humana e
serás digno de viver entre os deuses.
Não tome o sexo por pecado, também não o banalize. Temos no
sexo a mais sagrada de todas as experiências, foi o presente que
os deuses nos deram para que nos assemelhássemos à eles.
Nos templos de Ishtar e Afrodite a prostituição era sagrada, nos
clãs europeus os reis praticavam o Grande Rito com as sacerdotisas
da deusa. Esse rito não era um ato mecânico, era antes uma forma
de unir as duas correntes que por estarem separadas, tornam o
Homem apenas um mortal.
Procura os verdadeiros sacerdotes e a verdadeira ciência. Foge do
povo, encontre aqueles que não amam ninguém, e por isso amam
a todos. Seja o vento, viva nas alturas do Olimpo, próximo das
águias, e acima dos homens. Torna-te forte e use tua força para
destruir aqueles que te restarem, não com o martelo de Thor, mas
com as palavras do velho Voltaire, sopra para longe teu furacão e
derruba velhas casas que dominam a consciência dos homens, ou
a falta dela.
Se buscares realmente a verdadeira Arte, ajoelha-te perante os
deuses, somente à eles. Não seja figurante da comédia, contraria
a farsa e seja servo da verdade. Mas atenta-te para o fato de que a
verdade não é uma somente e que nenhum ser a possui em
totalidade. Desconfia de ti e do teu próximo, e segue o curso
das estrelas, olhando para o alto sem, no entanto, tirar o pé
do chão.